Nem só de texto vive o texto

O startup do iMac soa como o canto de um galo de silício, anunciando mais uma aurora digital. Num instante, o espaço está transbordando megahertz, ultravioletas e cafeínas. Mais um dia começa: normal e, convencionalmente, feliz.

"O leão nosso de cada dia nos dai hoje" - o mantra matinal pronunciado em tom solene, "pero sin perder la ternura", costuma dar sorte - isso prova, de uma vez por todas, que o que vale é a intenção.

Por outro lado, as tentativas de fazer do mundo um lugar melhor, têm mostrado exatamente o contrário. Separar o lixo, dar bom dia, essas coisas, não estão funcionando muito bem, apesar da sinceridade da intenção...

Maçã/n.

O documento se abre receptivo. Seu estado transmite a urgência formal das coisas inúteis e mal remunaradas.

Parágrafos menores, cada vez menores, nem as embromations funcionam mais. Não há frase feita, lugar comum, conceito batido, idéia surrada ou trocadilho infame capaz de encher a linguíça magra do discurso vazio.

Não existe oração, por subordinada que seja, que se preste a dizer nada a respeito de coisa nenhuma, nem jogo de palavras que se acomode nos encaixes mal recortados da informação inútil.

Não dá para concluir nem sintetizar...Nem só de texto vive o texto.

Multiplataformes são as sandálias do nosso século

Quem sabe, com o passar do tempo, até as nossas incuráveis ansiedades acabarão se incorporando à realidade online, multiplataforme e convergente, a qual estamos nos habituando meio sem querer nem resistir.

Imagine de que forma as cabeças de outras épocas lidariam com as conexões que nos entrelaçam como caranguejos num balaio. Às vezes, parece que estamos alimentando um organismo de muitas patas e nenhuma asa, um monstro mitológico gerado no útero fértil da cultura tecnológica.

Foi-se o tempo em que se podia ser só ou mal acompanhado. Em que convidava-se para sair e não para comunidades com centenas de perfis mais ou menos familiares; em que grupos se divertiam improvisando barricadas e correndo da polícia, e que conexões eram assunto exclusivo dos serviços secretos oficiais.

Nada contra a modernidade, o conforto e a tecnologia. Nenhuma objeção ao 3D, ao HD ao WiFi. Enfim, chegou a esperada era em que vulgares e avatares ocupam o mesmo espaço no tempo. No delírio virtual há lugar para o pop e o erudito, para o comum e o maldito.

Bem-vindas todas as formas de inteligência eletrônica que contabilizam genes, calculam impostos e produzem arte. Por outro lado, tudo contra a mediocridade, tolerada com uma passividade perturbadora para um século que mal começou a andar.

"Infeliz quem nega o seu tempo e tolo quem o venera", declarou o ambulante sino-brasileiro enquanto preparava yakisoba na saída do Metrô.

20 anos de Photoshop

da Folha
O software de edição de imagens Photoshop completa 20 anos nesta sexta-feira (19), com celebrações buscando reunir aqueles que o desenvolveram, segundo informou o site TechRadar na quinta-feira (18).

Alvo de polêmicas relativas à manipulação de capas das revistas, o software é sinônimo de edição de imagens. A França cogita uma legislação que advirta consumidores acerca do retoque de imagens.

A sala de espelho não é mágica.

Segundo a mitologia, três tecelãs fiam os dias da nossa vida, um dos quais se torna, inevitavelmante, o último. Esse trio de mulheres sinistras era conhecido na Grécia antiga como as Moiras. E o comprimento do fio que elas atribuiam a cada um era decidido apenas por elas: nem mesmo Zeus, o fodão do Olímpo, podia interferir na decisão.

Hoje em dia, em função da demanda, para ceifar nossas cabeças na hora programada, provavelmente, as três trocaram seus velhos fusos por equipamentos alimentados por base de dados. E também, como qualquer mortal, devem ter acrescentado o iPod ao seu dia-a-dia. De qualquer forma, a sua atuação continua bem presente e suas decisões soberanas - exatamente como na antiguidade clássica.

Mas nem só o passado produziu figuras femininas poderosas. Até mesmo a nossa cultura, de superficialidade assumida, gerou personagens importantes para comandar o destino de nossas ações. A nossa divina necessidade de comunicação industrial, por exemplo, é comandada por três mulheres que, por trás da aparente docilidade, controlam implacavelmente o destino de todo esforço de comunicação. Chamam – se as trigêmeas: Pertinência, Relevância e Consistência.

Tentamos em vão interpretá-las como meras projeções das necessidades e desejos daqueles com quem procuramos nos comunicar. Sob esse aspecto, as três deveriam possuir exigências facilmente mostradas pelas pesquisas e reveladas nos focus groups. A sala de espelho, no entanto, não é mágica.

Sacanagem

Li não sei onde e não sei quando - portanto você não tem que levar a sério esse dado - , que 40% do tráfego na internet ocorre pelos sites pornográficos. O interessante é que dificilmente esse índice surgiria de uma pesquisa de opinião levada com as metodologias normais.

Ah! lembrei. O dado está no livro Click de Bill Tancer, que não li mas deve estar repleto de dados tão interessantes quanto esse. Na resenha do Valor Econômico, “ Tancer lembra que, em 2006, o governo americano divulgou uma pesquisa da Universidade da Califórnia em que afirmava que 99% da navegação na internet estava livre de conteúdo pornográfico. Outras aferições, no entanto, mostravam um cenário completamente oposto. Na época, as visitas a sites de conteúdo adulto consumiam nada menos que 40% de toda a atividade on-line nos Estados Unidos. A explicação para essa discrepância leva o pomposo nome de "dissonância congnitiva". Em termos práticos, é a distância que existe entre aquilo que as pessoas dizem e o que realmente fazem.”

Comportamento, aliás, bastante comum entre grande parte dos consumidores e a totalidade dos políticos.

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